O Brasil insiste em abusar do fato de ser rico para brincar de ser pobre?

Reflexões e devaneios sobre a indústria, o Brasil, o mundo e o Covid-19


Começando pelo Brasil…


Há mais de 1 ano vivenciando a experiência mais inédita, surpreendente e que não escolhe cor e nem classe social, que é a pandemia do Covid-19, os tempos de hoje nos fazem refletir sobre este que é um dos setores mais importantes de nossa economia e que nos tempos atuais assume-se como primário, secundário e terciário, diferentemente do que foi aprendido na escola até pouco tempo atrás.

Primário por ser a agroindústria um dos setores mais promissores dos últimos tempos e talvez aquele que mais exercita a inovação entre todos os outros, colocando o Brasil como referência para todo o mundo. 

Secundário por ser a sua essência. 

E terciário pelo fato de ser a indústria do turismo uma das mais promissoras para países ricos em beleza como o Brasil, principalmente, conforme demonstra o gráfico abaixo, em meio a uma queda vertiginosa da influência de nossa indústria tradicional no PIB brasileiro. 

Em 2019 atingimos a pior participação desde 1947, com apenas 11%. Some-se a isso o fato de também termos atingido a menor participação na produção industrial mundial desde 1990, com apenas 1,19% e com exportações atingindo o menor percentual desde 1999, com 0,82%.


Gráfico 01: Peso da Indústria no PIB Brasileiro



Setor Industrial Mundo Afora


No gráfico 02 abaixo, é fácil constatar algumas obviedades e o motivo de vaticínios de muitos há pelo menos 20 anos. Começando pelo crescimento extraordinário da China, que, em 30 anos, sai do nada para se tornar a maior exportadora mundial, superando potências industriais como Japão, Alemanha, Coréia, Reino Unido e até o todo poderoso Estados Unidos da América. Fica evidente o poder que a política tem na mudança de destino de uma nação e, mais ainda, a força que tem a educação e a cultura na manutenção dos principais países nas primeiras posições mundiais. 

Apesar de o Brasil estar com a mesma participação da indústria no PIB que os Estados Unidos, a discrepância é gigantesca, tendo em vista sermos um país emergente, com seríssimas desigualdades sociais e ainda por cima com uma economia dependente de commodities. Some-se a isto o fato de estamos com a indústria estagnada há pelo menos 30 anos e com pouquíssima relevância quando lembramos do elevado valor agregado da indústria americana, que resulta numa elevada densidade industrial.

Já a China, assim como a maioria dos países asiáticos, é o grande player do mercado mundial, sendo responsável por 8% de todos os produtos industrializados no mundo e tendo sua indústria, consequentemente, um percentual de quase 50% de seu PIB. É um exemplo claro do poder que políticas consistentes e de longo prazo têm no crescimento e desenvolvimento de um país, mesmo com todas as dificuldades aparentes enfrentadas pelos chineses. Tecnologia, inovação, persistência, consistência, educação e uma cultura milenar fazem com que milagres aconteçam.

Todos esses países servem de exemplo para um país como o Brasil, que insiste em abusar do fato de ser rico para brincar de ser pobre.


Gráfico 02: Exportações Industriais Mundiais



O Brasil que insiste em enriquecer os países ricos


A estagnação da indústria brasileira pode ser melhor analisada através do gráfico 03. Já constatamos a pouca representatividade do Brasil no cenário mundial e o nenhum crescimento ao longo dos últimos 40 anos. E abaixo podemos constatar que somos um país de doentes, através do crescimento discrepante da indústria farmacêutica, independente da Covid-19, e a relevância dos setores de bebida e alimento, que foi motivada pelo incremento da renda dos mais pobres durante o governo Lula, que praticamente dobrou o salário mínimo em termos reais. Escapando do crescimento zero ou negativo, encontramos, por fim, a indústria de celulose, sendo o Brasil destaque como maior exportador, com quase 50% do mercado mundial. Vale pontuar que isto se deve a ações de poucas empresas que apostaram na tecnologia e na sustentabilidade como fatores de crescimento.

Todos os demais setores, como têxtil, vestuário, calçados, entre outros, estão sofrendo dos efeitos da China e de todos que apostaram em educação, tecnologia e inovação. 

Vale ainda ressaltar que, neste mesmo período em que a indústria caiu de 33% do PIB para 11%, nossa população cresceu 400% de 1950 a 2020.


Gráfico 03 – Evolução do Emprego na Indústria



A construção civil, o investimento em infraestrutura e o Brasil do Futuro que insiste em viver no passado


A construção civil e o investimento em infraestrutura são os grandes e melhores indicadores da saúde de um país. Eles são os setores que induzem o movimento da economia para cima ou para baixo. Nosso país está muito aquém do padrão mundial, com esses setores tendo os piores índices, ainda sob efeito da crise que iniciou no final de 2014 e persiste até os tempos atuais. A infraestrutura deveria ser obrigação primeira do governo. Um Brasil continental que tem uma malha ferroviária sofrível é um dos sintomas do muito que precisa ser trabalhado pelos próximos 100 anos. Insistir na assimetria entre o Brasil real, que trabalha, lucra e paga impostos vultosos, e o Brasil do Faz de Conta, caro, brasiliano e que abusa dos privilégios, é o pior caminho que um país pode adotar. 


Gráfico 04: Número de empregados na Indústria



O Covid-19 e o cenário industrial


Finalmente a pandemia! O gráfico a seguir traz a evolução do faturamento de alguns setores industriais, para demonstrar algo por demais interessante. Os setores de alimentos, farmacêutico e celulose passaram incólumes pela Covid-19. Já os demais setores sofreram nos meses iniciais, entre abril e junho de 2020, mas, passada a primeira onda, voltaram para patamares superiores aos normais, com resultados financeiros bem melhores que todos os anos anteriores. Some-se a isto a desvalorização do real, que alavancou os lucros dos exportadores, em especial os de commodities como celulose, soja, café, carnes, minério de ferro entre outros.

Certamente o setor de serviços foi o grande atingido e levará ainda muitos meses para se recuperar do baque econômico que fechou muitos pequenos negócios que dependiam da hoje proibida aglomeração.

Em breve o cenário será outro, com a população brasileira voltando ao antigo normal. Mesmo carente de líderes que nos orgulhem, este país chamado Brasil merece e vai ocupar o lugar que lhe é de direito. A saída não poderia ser mais simples: melhores líderes, menos privilégios, investimento em tecnologia, agregação de valor transformando commodities em produtos exportáveis, investimento em infraestrutura que facilite os investimentos nacionais e estrangeiros e, principalmente, investimento intensivo em educação e mudança de cultura do coitadismo para o protagonismo. 

Porque uma coisa é certa. Não podemos ficar inertes esperando as coisas se desenrolarem por si só. Assumir o protagonismo nos levará a navegar além da tempestade. Em nosso site, iniciarei uma série de artigos que mostrarão que o caminho pode ser promissor e que podemos sim ocupar o nosso espaço.


Gráfico 05: Faturamento Industrial Brasileiro por Setor






Nivaldo Teixeira
Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com especialização em Computação pela UFC e mestrado em Ciências da Computação pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). É diretor executivo da EIM Instalações Industriais; diretor-administrativo da Verde Tecnologia; e professor aposentado do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).